CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA EDUCACIONAL DE JOHN DEWEY PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS

Tatiana Galieta Nascimento

Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, NUTES/UFRJ

Introdução

O filósofo John Dewey nasceu e desenvolveu sua obra nos EUA durante a última metade do século XIX e primeira do século XX. Dewey presenciou momentos políticos e econômicos _ como o fim da Guerra Civil Americana, o desenvolvimento tecnológico, a Revolução Russa e a crise de 1929 _ que acabaram por influenciar sua filosofia educacional. Dewey também foi influenciado pelo experimentalismo das Ciências Naturais (o qual aplicou ao método filosófico e à didática) e acabou por ser um dos principais contribuidores da divulgação dos princípios da Escola Nova; movimento que teve seu auge no Brasil com a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932.

Neste trabalho, realizo uma revisão dos principais aspectos da filosofia educacional de Dewey baseando-me, principalmente, em sua concepção de escola, nos métodos nela empregados e na educação como fruto de uma experiência inteligente. Busco ainda rever os pontos de sua filosofia que criticam a forma com que a ciência é abordada na escola e suas propostas metodológicas para o Ensino de Ciências.

A educação e a aprendizagem na filosofia de Dewey

Dewey define educação como "o processo de reconstrução e reorganização da experiência, pelo qual lhe percebemos mais agudamente o sentido, e com isso nos habilitamos a melhor dirigir o curso de nossas experiências futuras". A educação deve ser encarada como uma necessidade da vida social, pois esta se perpetua por intermédio daquela. "Toda relação social que seja realmente vivida e participada é educativa para os que dela participam". No entanto, existe uma distinção entre esta educação, uma educação indireta que decorre do próprio processo da vida coletiva, e a educação direta e formal destinada às crianças na escola.

Dewey propõe um equilíbrio entre a educação tácita e não formal, recebida diretamente da vida, e a educação direta e expressa das escolas. Deveria ocorrer a integração da aprendizagem obtida através de um exercício específico destinado a algo (ocorrida na escola) com a aprendizagem diretamente absorvida nas experiências sociais. Esse exercício deveria se dar na escola por meio de um mecanismo especializado e sistemático. Na visão de Dewey tal sistema acaba por constituir um perigo, pois a escola muitas vezes torna-se um fim em si mesma, fornecendo aos alunos um material de instrução que é da escola e não da vida. Um outro erro é aceitar a teoria de que a educação é simples preparação para a vida, o que acaba por justificar todo o isolamento e artificialismo com que se organiza a escola. Para evitar tais equívocos, Dewey sugere que a escola atue como meio social, de modo que sua influência consista simplesmente num trabalho de redireção.

O processo educativo que se dá na escola é de contínua reorganização, reconstrução e transformação da vida. Segundo Dewey, "o hábito de aprender diretamente da própria vida, e fazer que as condições da vida sejam tais que todos aprendam no processo de viver, é o produto mais rico que pode a escola alcançar". Dentro da visão de que o interesse fundamental é pela vida, "aprender significa adquirir um novo modo de agir, um novo `comportamento' de nosso organismo". Ou seja, o que é aprendido tem uma força propulsora, de modo que este conteúdo se fixa intrinsecamente no organismo, passando a fazer parte dele como nova forma de comportamento.

Só deste maneira teremos realmente aprendido para a vida.

Para que essa aprendizagem que se integra diretamente na vida ocorra são necessárias algumas condições, as quais a escola tradicional não pode oferecer devido sua organização. São elas:

Ø Só se aprende o que pratica. A escola tradicional só permite que se pratiquem certas habilidades mecânicas, sem cogitar a prática de traços morais e emocionais. É necessário que a escola ofereça um meio social vivo, cujas situações sejam tão reais quanto as de fora da escola.

Ø Não basta apenas praticar. A intenção de quem vai aprender tem grande importância. Aprende-se através da reconstrução consciente da experiência. Não é possível adquirir um novo modo de agir, se não há a intenção de adquiri-lo.

Ø Aprende-se por associação. Não se aprende somente o que se tem em vista, mas também outras coisas que estão associadas com o objetivo principal.

Ø Não se aprende nunca uma coisa só. Á medida que aprende-se uma coisa, várias outras são simultaneamente aprendidas.

Ø Toda a aprendizagem deve ser integrada à vida, isto é, adquirida em uma experiência real de vida, onde o que for aprendido tenha o mesmo lugar e função que tem na vida. Se a criança percebe o lugar e a função que tem aquilo que vai aprender, sua vontade de aprender acaba dando-lhe impulso para fazer isso naturalmente.

Logo, para se educar é necessário que: (i) o aluno esteja numa verdadeira situação de experiência, que haja uma atividade contínua a interessá-lo por si mesma; (ii) um verdadeiro problema se desenvolva nesta situação como um estímulo para o ato de pensar; (iii) o aluno possua os conhecimentos informativos necessários para agir nessa situação e faça as observações necessárias para o mesmo fim; (iv) lhe ocorram sugestões para a solução e que fique a cargo dele o desenvolvimento de modo ordenado; quinto, que tenha oportunidades para por em prova suas idéias, aplicando-as, tornando-lhes clara a significação e descobrindo por si próprio o valor delas.

Uma vez compreendido que o método de educar está baseado na plasticidade do interesse intelectual e no propósito e aceitação da responsabilidade da atividade por parte do aluno, a questão pertinente passa a ser a natureza da matéria de estudo envolvida nesse método. Na próxima seção, discuto as considerações de Dewey no caso específico do Ensino de Ciências.

 

A Ciência para Dewey e suas propostas para o Ensino de Ciências

A definição de Dewey de ciência é: "por ciência (...) significamos aquele saber proveniente dos métodos de observação, reflexão e verificação deliberadamente adotados para assegurar conhecimentos certos e provados". Ele acrescenta ainda, que ciência significa, de um modo resumido, a compreensão do conteúdo lógico de todo o conhecimento. O cientista age, então, de forma lógica, seguindo um determinado método.

Na prática educativa, o ensino de ciências acaba incorrendo em erros por, justamente, entender que as fórmulas científicas são o ideal e não o ponto de partida para o aprendizado. Dewey diz que o aluno aprende símbolos sem a chave de sua significação, já que não há a integração de sua vida cotidiana com a aprendizagem científica. Logo, o aluno adquire uma quantidade de conhecimentos técnicos informativos sem a aptidão para descobrir suas relações com os objetos e atos que lhe são familiares.

Uma outra questão levantada por Dewey é a maneira como a ciência e as principais descobertas científicas são apresentadas aos alunos. Ele diz que são expostas leis e, com elas, no máximo, algumas poucas indicações do modo como se chegou até elas. Com isso, "os alunos aprendem `uma ciência', em vez de aprenderem o modo científico". Ele critica a metodologia tradicional que desconsidera aspectos da natureza da Ciência (como a produção do conhecimento e o fazer científico) em virtude das exposições de acontecimentos científicos que desprezam todo o contexto histórico-cultural onde o cientista estava inserido na época de sua pesquisa.

A alternativa proposta por Dewey considera o emprego de um método de ensino cronológico que consideraria a experiência do educando. Com base nessa experiência, o aluno desenvolveria os processos próprios de investigação científica; o que constituiria o "método psicológico". Ele argumenta que para solucionar problemas escolhidos dentre o material conhecido pelo aluno, deveriam ser usados os métodos pelos quais os cientistas chegaram ao seu saber aperfeiçoado. Com isso, evita-se "a confusão mental e displicência intelectual decorrentes do estudo de matérias de significação extremamente simbólica". Para os alunos que não irão se tornar cientistas seria muito mais importante adquirirem algum conhecimento da significação do método científico, do que se limitarem a reproduzir os resultados atingidos pelos cientistas.

 

Considerações finais

Antes de qualquer consideração acerca da filosofia educacional de Dewey é importante ressaltar que sua obra foi produzida num determinado contexto sócio-histórico-cultural e que a transposição de suas idéias para o presente momento educacional brasileiro não pode ser direta. Porém , notamos que várias observações feitas por Dewey com relação ao sistema escolar são ainda atuais.

No caso específico do Ensino de Ciências, as críticas de Dewey à aprendizagem simbólica deslocada das experiências cotidianas do aluno e destituída de considerações sobre a natureza da ciência nos permite refletir sobre o quanto ainda valorizamos e reproduzimos o modelo tradicional de ensino-aprendizagem de conceitos científicos. O método proposto por Dewey, no qual o aluno busca reproduzir os métodos utilizados pelos cientistas durante o processo de construção do conhecimento científico, é inovador para seu tempo. Porém, diversas críticas já foram feitas aos métodos que pretendem solucionar os problemas do Ensino de Ciências por meio das aulas práticas.

Devemos, por outro lado, reconhecer a grande contribuição que a filosofia educacional de Dewey trouxe para o sistema educacional escolar, principalmente no que diz respeito à organização da escola tradicional e às funções dessa instituição social.

Referências bibliográficas

DEWEY, JOHN Vida e Educação. 3 ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1952.

_____. Democracia e Educação. 3 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.

_____. The school and society. 2 ed. Chicago: University of Chicago Press, 1961.

DEWEY, JOHN Vida e Educação. 3 ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1952.

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